- Um circo de horrores...
- Sim e mais um pouco.
- Foram anos disso e agora todo esse frenesi por meia dúzia de garrafas.
- Medo, muito medo.
- Ah, isso eu não tenho. Foi-se o tempo em que eu me assustava com crendice.
- E quem falou que é crendice?
- Ninguém, mas seis garrafas nunca mataram ninguém.
- E nem vão matar.
- Deixa eu ir que lá vem ele.
Bárbara trabalhava no banco, caixa a mais de quinze anos e
na hora do café aproveitava para prosear com a Leila, auxiliar de cobrança.
O sonho de Bárbara era passar para o INSS e ela já ia para o
quarto concurso. Nas três primeiras vezes não passou por pouco e nessa ela
tinha convicção que estava pronta de fato.
- Dei duro. Gabaritei vários simulados, estou fera no
direito administrativo e acho que até, depois de passar, posso dar aula em
cursinho.
- Vai sim. Você merece pelo esforço que está fazendo.
- E você? Não pensa em largar esse banco?
- Penso, mas não agora. Estou perto de bater vinte anos e quero abrir um
pizzaria ou quem sabe um café.
- Não é arriscado?
- Tudo é Bárbara. Você também corre o risco de não passar.
- Deus me livre.
Além de caixa no banco e estudante para concurso ela ainda
fazia doces. Aos finais de semana, quando dava, vendia seus brigadeiros
enfeitados para os vizinhos do condomínio. As vezes fazia bolos, mas o forte
eram os brigadeiros e doces com nozes, daqueles caramelados.
- Você nunca mais trouxe aquele red velvet.
- E tempo?
- Imagino.
- Mal consigo respirar quando chego em casa. São as coisas para ajeitar, roupa
para lavar, lixo e o mínimo tempo que sobra estudo mais um pouco.
- E você não pensa em abrir uma doceria?
- Até pensei uma época, mas comercio não é comigo. Gosto de fazer os doces, mas
tem hora em que enche o saco. Isso sem falar no preço de tudo.
- Agora tem até leite condensado genérico.
- E não presta. Caí na besteira de comprar porque estava barato e joguei um
cento de doces fora porque ficaram uma porcaria.
- Eu comia assim mesmo.
- Não dá ponto, não tem a mesma consistência. Um desperdício de tempo e
dinheiro.