terça-feira, junho 13, 2017

Passas ao rum

passas ao rum

O melhor sempre foi o sorvete de creme, mas minha noiva insiste em pedir o de flocos quando não acha o de passas ao rum. Mania idiota a dela de comer chocolate depois do jantar, antes de deitar, só para me irritar. Já disse que sorvete de flocos não combina com café, mas ela diz que isso é cisma minha e que esse lance de harmonização é só uma forma de se vender itens com pouca saída.

Desde quando combinar duas coisas que não tem nada haver uma com a outra é uma jogada da indústria para desencalhar itens? Ela cria essas teorias, insiste nisso e perdemos a tarde toda debatendo o sexo dos anjos, ou como ela gosta de dizer, a vida dos querubins.

O dia em que ela parar de me irritar vamos nos separar, isso é certo, mais certo do que dois mais dois é quatro. Não que eu goste quando ela me irrita, mas é que se ela não me irrita não é ela e se não for ela não serve. Ela consegue me irritar até quando está dormindo, porque puxa toda a coberta, se estica na diagonal da cama e quase me joga no chão. Isso é dela, é o jeito que dela, não tem como mudar.

O melhor continua sendo o de creme, mas aqui em casa só entra o de flocos, porque ela nunca acha o de passas ao rum.

Imagem do post: Tumblr / Here are beautiful people

segunda-feira, junho 12, 2017

Caminhantes 2

caminhantes 2

A química dos meus dias de gloria era poder contemplar o mar antes de completamente despertar. Da varanda via o horizonte, o sol a brilhar e o mar. Aquelas ondas batendo, o vento soprando, pássaros em revoada e o mar. Tão logo amanhecia, tão logo os olhos eu abria e já sabia que lá ele estaria, o mar.

Nunca me faltou vontade de vislumbrar o mar. Nunca me faltou vontade de despertar, levantar, abrir os olhos e vislumbrar a minha frente o horizonte e o mar. Vontade. É isso, a palavra magica que transforma tudo, e ela nunca me faltou.

Na infância tinha vontade de chocolate, sempre tive. Na adolescência de descobrir novas coisas interessantes, sempre fui atrás de entender o funcionamento das pequenas coisas, dos itens inusitados e daquilo que me encantava. O projetor de cinema, a tela da televisão, o som do rádio. Meus pais achavam que eu seria um engenheiro, construtor de algo ou cientista, mas não tanto quanto eu.

Descobri cedo ou tarde demais, que não tinha aptidão para coisa pouca, eu queria mais do que o mundo poderia me dar e felizmente, ele me deu o que pode. O que ele pode me dar foi mais do que imaginei. Ao mesmo tempo em que eu crescia, desenvolvia talentos inusitados. Tinha impulsos incontroláveis, vontades inimagináveis e desejos cada vez mais estranhos.

Meus pais já haviam se conformado com o fato de que eu não seria o tal engenheiro dos sonhos ou o cientista famoso ganhador do Nobel. Eles intuíam que eu seria uma espécie de viajante, um homem inquieto em busca de novidades. Aquela vontade da adolescência de entender o funcionamento das pequenas coisas não desapareceu, só aumentou. As pequenas coisas agora eram não estavam mais no meu bairro, na minha cidade, no meu país, elas estavam espalhadas ao redor do mundo e eu precisava ir atrás delas.

Imagem do post: Tumblr / Morningstar

domingo, junho 11, 2017

Pirulito 2

pirulito 2

Ela é a namorada do namorado dela, ele é o namorado da namorada dela. E eles se amam.

E eles se amam, porque ela é a namorada do namorado dela e ele é o namorado da namorada dela.

Deitar na cama sem hora marcada só para fugir da rotina. Sair da cama, sem olhar para trás. Voar sem destino até o amanhecer. A namorada dele, o namorado dela.

Ela nunca foi a namorada de mais ninguém, só dele.

Ele nunca foi o namorado de mais ninguém, só dela.

Acontece que eles ainda não sabem o que será. Enquanto o tempo passa, nada do que era é real. Namorada dele, que é ela. Namorado dela, que é ele.

Um do outro, outro do um. Dois. É dele, é dela.

Imagem do post: Tumblr / In awe

sábado, junho 10, 2017

Sem aditivos químicos

sem aditivos quimicos

Feijão com pão é tão bom, mas tão bom, que tenho medo do governo inventar de tributar. Sério que isso sempre passa pela minha cabeça, é um pensamento recorrente.

A primeira vez que experimentei feijão com pão eu estava viajando e no restaurante onde fui almoçar esse era o prato principal. Pedi meio desconfiado, mas já na primeira mordida me apaixonei.

Hoje como feijão com pão todos os dias. Um ao acordar e outro antes de deitar. Um no almoço e outro no jantar. Sem feijão com pão não consigo mais ficar e por conta disso não paro de rimar

Imagem do post: Google

sexta-feira, junho 09, 2017

Caminhantes

caminhantes

Por toda extensão da via podemos ver carros estacionados como que em procissão, uma procissão de carros. O percurso não é dos maiores, não chega a uma maratona, mesmo assim demoramos mais de três horas para percorrer a costa oeste. Um dia nublado, muitas nuvens no céu e um clima estranho. Fumaça saindo das chaminés, lareiras a todo vapor, pessoas encolhidas dentro de seus casacos de lã e um frio cortante nos levando a entrar na primeira lanchonete que encontramos.

- Dois cafés bem quentes.
- Torta de maçã?
- Chessecake para mim.
- Aceito a torta.

Ficamos ali por cerca de uma hora conversando sobre ontem à noite, sobre os pedaços jogados sobre a mesa, sobre aquilo que não compreendíamos, mas que insistíamos em tentar compreender. Conversamos sobre muitas coisas. Perdemos aquela inibição inicial de dois desconhecidos, rimos como se já nos conhecêssemos há muito tempo, talvez até como se fossemos íntimos.

Ontem a noite fez mais frio do que agora. Ontem à noite dispensamos os casacos e nos aquecemos com nossos corpos. Saímos da lanchonete mais tranquilos, menos preocupados com os acontecimentos do passado, mas não ficamos pensando no futuro. Não queríamos criar uma historia que nunca iria acontecer. Fomos sinceros um com o outro enquanto bebíamos cada gole de café. Pagamos a conta da lanchonete com o único dinheiro disponível e não tínhamos nada para pegar uma condução, por isso continuamos a pé mais alguns quilômetros até o posto de gasolina.

- Boa tarde amigo estamos caminhando desde a Thompson Square e não temos nenhum dinheiro conosco, você poderia nos ceder um pouco de agua?
- Viajantes?
- Caminhantes.
- Daqui?
- Memphis.
- Elvis.
- Sim.
- Tem uma torneira embaixo do galpão, sirvam-se a vontade.

Imagem do post: Google

quinta-feira, junho 08, 2017

Luz que ilumina o caminho

luz que ilumina o caminho

Uma lamparina quando acesa pode iluminar um cômodo grande. Uma lamparina, somente uma lamparina e olhe lá. Tecnologia dos dias passados, pois hoje as lâmpadas cumprem muito bem o papel de donas do pedaço. O lance da iluminação passa por várias etapas e compreende muitos processos, uns simples e outros complexos, mas ambos de extrema importância.

Uma lâmpada não é apenas uma lâmpada.

Dito isto podemos dizer com propriedade que a luz, essencial, não pode ser ignorada.

Não espere coerência em um texto como esse. O foco aqui é outro. Não tenho a pretensão de iluminar nenhum caminho, muito menos de discorrer sobre lâmpadas e afins.

Sabe quando nada vem à mente? Então, foi isso.

Nada veio a mente, só uma lamparina e a partir dela todo o resto, esse amontoado de palavras, frases e parágrafos desconexos.

Obrigado pela leitura.

Imagem do post: Tumblr / Here are beautiful people

quarta-feira, junho 07, 2017

Pirulito

pirulito

Ela é o pirulito do pirulito dele, ele é o pirulito do pirulito dela. E eles se amam.

E eles se amam, porque ela é o pirulito do pirulito dele e ele é o pirulito do pirulito dela.

Deitar na cama sem pijama ao meio dia só para fugir da rotina. Sair da cama, sem tocar o chão. Alçar voo sem rota de colisão até o amanhecer. O pirulito dela, o pirulito dele.

Ela nunca foi o pirulito de mais ninguém, só dele.

Ele nunca foi o pirulito de mais ninguém, só dela.

Enquanto o sol surge no horizonte, eles ainda não sabem o que será. Enquanto a lua some faceira, nada do que era antes permanecerá. Pirulito dela, que é dele. Pirulito dele, que é dela.

Um do outro, outro do um. Dois sem tirar e nem por. É dela, é dele.

Imagem do post: Tumblr / All beautiful women

terça-feira, junho 06, 2017

Sem conservantes

sem conservantes

- É de fígado!
- Patê?
- Sim, patê.
- E é bom?
- Delicioso.
- Nunca imaginei. Boi?
- Galinha.
- Nossa, tantas para um potinho.
- Nem é, porque de certo tem outras misturas no meio.
- Então não é natural.
- E o que nessa vida é.
- Pensando bem nada.
- Então...
- Deixa experimentar...

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segunda-feira, junho 05, 2017

Pão grampeado

pao grampeado

- Padaria do Manoel, bom dia!
- Podemos falar?
- Manoel, bom dia!
- Pão careca, tem hoje?
- A broa está melhor, um tanto quanto crocante, mas ao gosto do freguês.
- Deixa a massa do pão doce descansar mais um pouco e não pesa a mão no açúcar
- As rosquinhas estão quentinhas ainda
- Eu sei, mas ainda não estou podendo com o glúten
- Vou mandar um empadão de frango, farinha especial, você vai gostar
- Bastante recheio, por favor.
- Muito, do jeito que você sempre recebeu.
- Pego as baguetes na próxima semana junto com os frios.
- Ok, ao seu dispor
- E a família, como está?
- Ora, vamos evitar assuntos pessoais por aqui, hoje em dia não podemos dar bobeira com os grampos.

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domingo, junho 04, 2017

Nau a deriva

nau a deriva

Estamos todos no mesmo barco, mas pensamos muito diferente.

Você é embutido, uma mistura de coisas prensadas, embaladas e processadas. Ele é uma fritura, uma massa amarela recheada, em formato de gota.

Você torce para que tudo dê certo. Ele também.

Você gosta do vermelho. Ele não tem uma cor definida, mas simpatiza com o azul e o amarelo.

Você defende a inclusão, não importa como. Ele defende a inclusão, mas só dos que podem ser incluídos.

Você não gosta dos detalhes, acha que dois mais dois, independente do contexto, é sempre quatro. Ele é detalhista ao extremo e sabe que em alguns casos, dois mais dois, mesmo sendo quatro, não resolve o problema.

Você gosta de analisar o presente sob a ótica do passado. Ele analisa o futuro sob a ótica do presente.

Você acha que todos são iguais, desde que essa igualdade seja fora do seu mundo. Ele acha que na teoria todos são iguais, mas que na prática isso não funciona.

Você quer um mundo mais justo. Ele também, desde que todos se esforcem.

O objetivo é o mesmo, mas você, por muitas vezes sonha acordado de olhos fechados e ele, por muitas vezes, deixa de sonhar por medo de não conseguir acordar.

Imagem do post: Google

 

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