Nos reencontramos em um dia frio de inverno. Não um dia frio
qualquer, mas o dia mais frio daquele inverno.
Você estava vestindo um enorme casaco com feltro ou algo do
tipo, sou péssimo em tecidos e eu estava tentando fazer com que o paletó desse
conta de me aquecer. Estava realmente muito frio aquele dia. Inacreditavelmente
a previsão, que sempre acertava, estava totalmente errada.
Disseram na TV, no principal noticiário, que faria sol.
Não acreditei. Só não esperava um frio como aquele.
Perdi preciosos segundos, talvez minutos, tentando
identificar no seu rosto algum traço daquele tempo. Tentei ver nos seus olhos o
mesmo brilho do tempo em que não nos preocupávamos com a hora ou com o que
estava acontecendo lá fora.
Dias intensos os que vivemos. Grandes dias.
Por um instante achei que você não fosse me reconhecer. Talvez
a barba ou o corte de cabelo. Quem sabe as rugas. A pele detonada pelo tempo. O
vento.
Você continuava a mesma, mas o seu cabelo estava diferente. Notei
algumas mechas descoloridas, alguns tons mais escuros nos fios que caiam sobre
seus olhos. Coisa da minha cabeça talvez.
A memoria falha consideravelmente depois de alguns anos. Dez?
Quinze? Dezessete!
Isso. Dezessete anos depois aqui estamos nós de frente um
para o outro sem dizer nenhuma palavra. Será que precisamos dizer algo um para
o outro? Você ainda esta magoada? Não sei se quero pensar no passado.
- Cinco segundos antes. Nem cinco segundos a menos e nem
cinco segundos a mais.
- Exato! Você lembrou...
- Era para esquecer? Não tem como.
- Não! Não foi isso que quis dizer, é que eu não esperava encontra você aqui. Não
esperava assim tão de repente.
- Deveríamos ter combinado antes?
Ela me pegou. Bingo. Eu estava nervoso, não sabia o que
dizer.
Sempre achei que seria mais fácil quando nos reencontrássemos.
Achei que o tempo ia me deixar mais seguro, com argumentos que justificassem
tudo. Não pensei que esse encontro casual pudesse me fazer esquecer as palavras
e parecer um adolescente sem saber o que fazer.
Não há ensaios para o inesperado. Ela estava pronta, sabia o
que dizer, tinha as palavras na ponta da língua. Eu só pensava em coisas
desconexas, não tinha ideia de como conduzir aquela conversa sem parecer um
completo idiota. Talvez fosse melhor fingir um compromisso inadiável e fugir
dali ou simplesmente ignorar a presença dela como se nada tivesse acontecido.
- Como você está?
- Bem e você?
- Atarefada com os preparativos. Minha irmã vai se casar em maio e está meio
indecisa com muitas coisas. Estou tendo que ajuda-la nessa coisa de pensar nos
detalhes e não se esquecer de itens importantes.
- Não imagino você com um bloco na mão fazendo anotações de flores, doces e arranjos.
- Nem queira imaginar. Mas e você, o que está fazendo?
Se disser que ainda estou perplexo com esse encontro, vale?
Fato que não sei o que estou fazendo. Estava indo para uma
aula importante. Meus alunos ainda devem estar me esperando, ai nos encontramos
e pronto. Não sei o que estou fazendo.
- Álgebra. Dou aulas de álgebra na faculdade de matemática.
Não tenho que correr atrás de flores, doces e arranjos, mas estou feliz com
isso.
- Então o matemático venceu o físico.
- Diria que o físico se cansou da falta de oportunidades.
- Perdeu a esperança?
- Eu tinha esperança em nós, se é isso que você quis dizer. Não, espere...
Desculpe, não foi isso que eu quis dizer...
- Depois de dezessete anos ainda vamos ter essa conversa?
- Não deveríamos?
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